LEITURAS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Por Luiz Gonzaga da Rocha*


Não sei o que dizer olhando esta imagem que retrata um cenário novo para o ponto central da Capital do nosso País. Não sei o que é melhor, o que é certo ou errado para superar esse momento de crise em face da pandemia do vírus que mata. Não quero que você morra, não quero morrer, pelo menos por agora, não, para depois, poderemos conversar. Quero lhes dizer que essa quarentena é um saco, não que os véus do auto isolamento nos sufoquem ou não nos pareça incômodo, mas, com toda certeza, não representa a vida que devemos viver. Somos Seres Sociais e a inteiração social nos fortalece. Sinto que precisamos sobreviver. Então:

“Vou contar a vocês, por exemplo, a ideia que está dando voltas na minha cabeça há vários anos, e suspeito que essa história já esteja bastante redonda. Conto agorporque certamente quando a escrever, e não sei quando será, vocês vão achá-la completamente diferente, e poderão observar como ela evoluiu.

Imaginem um povoado bem pequeno, onde existe uma senhora velha que tem dois filhos, um de dezessete e uma filha menor, de catorze. A senhora está servindo o café da manhã para os filhos, e nota-se nela uma expressão de muita preocupação. Os filhos perguntam o que ela tem, e ela responde: “Não sei, mas amanheci com o pensamento de que alguma coisa mu8to grave vai acontecer neste povoado.”

Os dois riem dela, dizem que são pressentimento de velha, coisas que acontecem. O filho resolve ir jogar bilhar e no momento em que vai fazer uma carambola simplíssima, o adversário diz a ele: “Aposto um peso como você não consegue.” Todos riem, ele ri, mas tenta e de fato não consegue. Paga um peso e ouve a pergunta: “O que será que acontece, se era uma carambola tão simples?” Diz: “É verdade, mas fiquei preocupado com o que minha mãe me disse esta manhã, sobre alguma coisa grave que acontecer neste povoado.” “Todos riem dele, e o que ganhou o peso volta para casa, onde está sua mãe com uma prima ou uma neta ou, enfim, uma parente qualquer. Feliz com seu peso, diz: “Ganhei este peso de Dámaso, e da maneira mais simples, porque ele é um bobão.” “Bobão por quê?” Responde: “Ora, porque não consegui fazer uma carambola simplíssima, estorvado de preocupação porque a mãe dele amanheceu hoje com a ideia de que alguma coisa muito grave vai acontecer nesse povoado.”

Então a mãe diz a ele: “Não deboche dos pressentimentos dos velhos, porque às vezes acontecem.” A parente ouve tudo isso e sai para comprar carne. Ela diz ao açougueiro: “Quero meio quilo de carne”, e no momento em que ele está cortando, ela acrescenta: “Ou melhor, me dê logo um quilo, porque estão dizendo por aí que alguma coisa grave vai acontecer, e é melhor estar preparada.” O açougueiro entrega a carne e quando chega outra senhora para comprar meio quilo, diz a ela “É melhor levar um quilo porque o pessoal está dizendo que alguma coisa grave vai acontecer, e está tudo mundo se preparando, comprando coisas.”

Então a velha responde: “Tenho vários filhos; olha aqui, é melhor me dar logo dois quilos”. Leva os dois quilos e, para não espichar a história, digo que em meia hora o açougueiro vendeu todo seu estoque de carne, matou outra vaca, vendeu tudo e o rumor foi se espalhando. Até que chega o momento em que todo mundo no povoado está esperando que alguma coisa aconteça. As atividades são paralisadas, e de repente, às duas da tarde, faz o calor de sempre. Alguém diz: “vocês estão percebendo o calor que está fazendo?”. “Mas aqui sempre fez muito calor.” Tanto calor que é um povoado onde todos os músicos tinham instrumentos remendados com e tocavam sempre na sombra, porque se tocassem ao sol os instrumentos cairiam aos pedaços. “Mesmo assim” – diz alguém – “nunca fez tanto calor a esta hora”. No povoado deserto, na praça deserta, baixa de repente um passarinho, e corre a voz: “tem um passarinho na praça.” E todo mundo vai, espantado, ver o passarinho.

“Mas, meus senhores, sempre houve passarinhos que pousam na praça.” “Pois é, mas nunca a essa hora.” Chega um momento de tamanha tensão para os habitantes do povoado, que todos estão desesperados para ir embora mas ninguém tem coragem. “Eu sim, sou muito macho”, grita um deles, “e vou-me embora.” Pega seus móveis, seus filhos, seus animais, mete tudo numa carreta e atravessa a rua principal onde o pobre povo está vendo aquilo. Até o momento em que dizem: “Se ele se atreve a ir embora, pois nós também vamos”, e começam a literalmente desmontar o povoado. Levam embora as coisas, os animais, tudo. E um dos últimos a abandonar o povoado diz: “Que não venham uma desgraça cair sobre o que sobra da nossa casa”, e então incendeia a casa e outros incendiam outras casas. Fogem num tremendo e verdadeiro pânico, feito um êxodo de guerra, e no meio deles vai a senhora que teve o presságio, clamando: “Eu falei que alguma coisa muito grave ia acontecer e disseram que eu estava louca.”

Este relato de Gabriel Garcia Márquez, inserto no texto: “como comecei a escrever”, foi escrito em 3 de maio de 1970, consta do livro “Eu não vim fazer um discurso” (São Paulo, Record, 2011, pág. 12/17), e retrata bem, guardadas certas proporções, não o pânico ou o medo não sem fundamento que se estabeleceu (uso o tempo passado, para o futuro, certo que o presente seja momentâneo) no mundo, impondo que parte significativa da população mundial se recolha em suas residências por conta de um serzinho invisível que a ciência impôs o nome de COVID-19 ou Novo Coronavírus. Brasília, por exemplo, está esvaziada. A imagem da Rodoviária de Brasília vazia causa desalento a quem se acostumou com a balburdia do local e o vai-e-vem de milhares de transeuntes. 

Como no texto de Gabriel Garcia Márquez, as atividades econômicas, sociais e políticas em Brasília estão quase que paralisadas, servidores públicos estão realizando trabalho remoto ou teletrabalho sem que antes houvesse decreto governamental ou empresarial regulando esse tipo de trabalho. O Congresso Nacional se ofusca sem o brilho das suas estrelas: Senadores, deputados, sem a miríade de servidores e de todo o aparato que gira em seus entornos. E quem imaginaria: as Academias estão sem público: fechadas. Cinemas; Teatros; Shoppings; Pub’s; bares e restaurantes quase que às moscas. Ah! E nas vias e estacionamentos públicos antes abarrotados de veículos, e agora, até os flanelinhas parecem apelar aos céus pela presença da balbúrdia de antes. O Saudoso Raul Seixas também profetizou em cenário em “O Dia em que a Terra parou”: Foi assim: “No dia em que todas as pessoas, do planeta inteiro, resolveram que ninguém ia sair de casa. Como que se fosse combinado em todo o planeta, naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém, ninguém.”

E entre os tantos textos e vídeos curtos ou longos que circulam na internet nestes dias em que as pessoas estão impositivamente em casa, leio-os e medito, quanta verdade em meio ao amontoado de asneirasses; quantas recomendações de medicamentos e de orientadores da hora para espantar o risco da pandemia e proteger pessoas. As pessoas, percebem-se, sentem medo, não sabem como se precaver de um serzinho invisível que circula solto no ar e pousa em todos os lugares onde os humanos circulam. Infelizmente, a situação passou da disseminação do alarmismo quando alguns diziam que a existência do vírus era mentira ou era verdade, para a situação de confirmação do vírus, doentes, mortes e mortes, e de um possível colapso do sistema de saúde pública caso não se contenha a propagação do vírus da morte.

Um texto que circula na internet me tocou e por essa razão tomei a liberdade de o reproduzir. Ele diz: “Algo invisível chegou e colocou tudo no lugar. De repente os combustíveis baixaram, a poluição baixou, as pessoas passaram a ter tempo, tanto tempo que nem saber o que fazer com ele, os pais estão com os filhos em família, o trabalho deixou de ser prioritário, as viagens e o lazer também. De repente silenciosamente voltamo-nos para dentro de nós próprios e entendemos o valor da palavra solidariedade. Num instante damos conta que estamos todos no mesmo barco, rico e pobres, que as prateleiras do supermercado estão vazias e os hospitais cheios e que o dinheiro e os seguros de saúde que o dinheiro pagava não tem nenhuma importância porque os hospitais privados foram os primeiros a fechar. Nas garagens estão parados os carros de última geração e os ferros velhos antigos simplesmente porque ninguém pode sair. Bastaram meia dúzia de dias para que o Universo estabelecesse a igualdade social que se dizia ser impossível de repor. O medo invadiu todos. Que aos menos isto sirva para nos darmos conta da vulnerabilidade do ser humano (Autor desconhecido).

Em tempos de coronavírus e de uma enxurrada de orientações para que todos evitem sair de casa, na tentativa vivencial para conter a disseminação do vírus que tomou conta do planeta, não é a melhor hora para sair para tomar uma cerveja com os amigos ou sair zanzando de bar em bar ou de restaurante em restaurante. Então, a leitura se apresenta como o melhor aliado ao isolamento social do momento. A leitura preenche a alma e afasta o medo da pandemia, além de enriquecer o intelecto, amplia a cultura geral. Os livros que já eram nossos melhores amigos para todos os dias e horas, agora, vão tornar qualquer quarentena mais amena, mais suave.

Querido Leitor(a), procurei reuni neste texto um conjunto de palavras para lhes dizer que para além do medo de contrair o coronavírus e do medo da morte, há vida lá fora, e muita vida lá fora, e há latente, em cada um de nós, a maravilhosa experiência de vivência do amor fraternal e, sobremodo, de renovação espiritual. Aproveitemos esses dias desafiadores da melhor maneira possível. 

Muita Paz.

*Luiz Gonzaga Rocha – Educador (Professor de História e Filosofia - Aposentado). Advogado, Escritor e Promotor de cultura com ponto no comércio on-line de livros novos e usados no site www.esotericmundi.com.br

Marcadores: #Crise Mundial. #História. #Coronavírus #Brasília #Brasil

Postagem: www.unidosporbrasilia.com.br/Artigos - 19/03/2020.

 

 

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