POLÍTICA ALÉM DO VOTO E DA UTOPIA

Por Luiz Gonzaga Rocha


Não sou anarquista nem revolucionário e nem mesmo conservador ou liberal, mas como muitos, um pouco de tudo, a depender da causa de cada momento. Agora, por exemplo, defendo uma causa de forte teor anarquista e a reforço com um argumento que considero célebre; o argumento de que "a política visa com o seu fim supremo servir as pessoas", e ainda que esse argumento possa parecer utópico, adite-se que alimento o sentimento de que “o dever mais sagrado do político é velar pela felicidade do eleitor”.

Em Brasília, e em todo o Distrito Federal, diferente do restante das Unidades da Federação, não terá eleições neste ano de 2016, o que não significa dizer que não se respire política ou que a política não nos sufoque e não nos conduza às tantas quantas reflexões, particularmente quando repara-se em algumas pichações provocativas em pontos específicos da cidade, e uma delas se destaca: Existe política além do voto!

Reflito e respondo em solilóquio: Sim! Existe política além do voto! E induzido a querer ir mais além e a escrever. A Política, com "P" maiúsculo, é algo do tipo de validade erga ommes, ou seja, com efeitos vinculadores para todos os membros da sociedade e neste sentido, a Política é a arte e ciência de servir e de bem servir a sociedade. Assim, entendo e gostaria que você, leitor, entendesse a "política" como sendo tudo o que se refere às pessoas, às cidades e, consequentemente, o que é urbano, civil, público, e até mesmo sociável e social.

Daí a exordial ideia de que "existe política além do voto", razão essa pela qual copilo "o manifesto" com o mesmo título, um típico manifesto anarquista, e copilo, ainda, o artigo "Tomás More: patrono dos governantes e dos políticos", do Professor José Carlos Brandi Aleixo, publicado no Jornal Correio Braziliense do último dia 23 de junho de 2016. Dois textos coesos, duas ideias que se somam para justificar o entendimento que existe política além do voto e das eleições.

Do primeiro texto destaco o entendimento de que "existe um outro mundo a ser descoberto". Fazer política para votar e ser votado acada quatro anos, é o mesmo que "não fazer política". Fazer política se reveste de outros afazeres e entendimentos. Daí propor o estabelecimento de uma Democracia Direta e de "uma política construída diretamente pelas pessoas", reconhecendo que fazer política é um exercício nobre de participação social.

Do segundo texto destaco a figura de Thomas More, Thomas Morus ou Tomás Moro, autor da "Utopia", obra literária que o consagrou. Ele foi um homem de estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis, ocupou vários cargos públicos, e em especial, o cargo de "LordChancellor" (Chanceler do Reino da Inglaterra). A Igreja Católica já o tinha como beato desde 1886, e oficializou a sua canonização como santo em 9 de maio de 1935 (Papa Pio XI) com festa litúrgica em 22 de junho, data do seu martírio. E no dia 31 de outubro do ano de 2000, o Papa João Paulo II, na Carta Apostólica “Moto Proprio” proclamou More como “patrono dos governantes e políticos”. É nela se lê:

"Da vida e martírio de São Tomás More emana uma mensagem que atravessa os séculos e fala aos homens de todos os tempos da dignidade o alienável da consciência... A sua figura é vista como fonte de inspiração para uma política que vise como seu fim supremo o serviço da pessoa".
Vamos aos textos.

EXISTE POLÍTICA ALÉM DO VOTO!

                                                                                                                                                                                      Anônimo
Já percebeu que votar não resolve os verdadeiros problemas da população? Vem governo, vai governo e a situação permanece igual. Nas eleições, os políticos prometem soluções para todos problemas e pedem nossos votos, mas quando são eleitos esquecem daqueles que o elegeram.
Quantas decisões são tomadas sem a nossa opinião? Mudam as leis, constroem usinas e estádios de futebol, aumentam a passagem do transporte público, gastam milhões com seus salários… Mas nada de mais hospitais, escolas e creches. Não fazem nada em relação às enchentes. A polícia continua oprimindo o povo todos os dias.

Os governantes dizem que são ações para o nosso “bem” e que é o “melhor para a gente”. Mas como podem saber o que queremos se não nos consultam?Eles não querem saber o que precisamos, queremos e desejamos.

Isso tudo não é novidade para maioria de nós. Enxergar que as coisas não vão bem já é um começo, mas não basta. Devemos ir além! Temos que tomar de volta nossas vidas em nossas próprias mãos!!!

Ninguém mais aguenta essa política que nos impõem. A democracia representativa, esse sistema baseado nas eleições de políticos para cargos de governo, é o que mantém as coisas como estão.

O poder está concentrado nas mãos de uma minoria que governa em favor dos ricos e poderosos, ignorando as necessidades e os desejos do povo.

O crescimento econômico é uma farsa, pois somente os grandes empresários se beneficiam com ele. O povo, como sempre, recebe só as migalhas que caem dos bolsos cheios dos donos do capital que são favorecidos por aqueles que detém o poder. E nesse sistema capitalista sempre quando alguém ganha, muitos outros perdem…

É por isso que nos colocamos contra esse sistema político-econômico.
Não aceitaremos mais que os políticos decidam por nós! Vamos nos organizar e construir novas formas de viver em sociedade.

Existe política além do voto! Votar de quatro em quatro anos não é fazer política. Existe um outro mundo a ser descoberto. Ele não está tão distante quanto imaginamos. Para vê-lo, basta apenas pararmos de aceitar o que nos impõem e passar a agir para alcançar um horizonte que está além do que estamos acostumados a enxergar.

Para isso propomos fazer política todos os dias, coletivamente, e que as decisões e ações partam de cada um e de todos. Uma política construída diretamente pelas pessoas. Que elas mesmas tenham a possibilidade concreta de defender seus interesses e decidirem sobre o rumo das suas vidas, associando-se com outras pessoas que tenham interesses e vontades em comum. Que as decisões sejam tomadas com todos os indivíduos em pé de igualdade, sem nenhum indivíduo com mais poder do que outro, baseados em uma relação de cooperação e solidariedade.

Propomos, ao invés da democracia representativa e das eleições, uma democracia direta em que as pessoas se organizem para decidir sobre os assuntos nos quais estejam envolvidas, seja no seu bairro, na sua escola, no seu local de trabalho, enfim, em qualquer espaço de convivência. Queremos uma política que seja feita no dia-a-dia, que esteja integrada às nossas vidas. Que não tenhamos mais que escolher um governante. Uma política na qual não precisemos mais votar e nem eleger ninguém! Que sejamos nós mesmos a decidir e agir na organização da sociedade.

Essa proposta política é praticada em diversas partes do mundo e por muitos grupos diferentes. Trabalhadores se reúnem para produzir bens ou prestar serviços sem necessidade de um patrão, em sistema de autogestão. Diferentes grupos de pessoas se organizam em associações de bairros, mantém centros culturais, participam de movimentos sociais, culturais e políticos, assim como de manifestações, protestos, ocupações e ações para denunciar as injustiças cometidas pelo Estado e pelos capitalistas. São pessoas que pela ação direta, sem representantes e sem chefes, decidem e atuam na política e na economia de nossa sociedade. Esses grupos se comunicam e se coordenam, combinando ações, criando laços de apoio e ações conjuntas, mas cada um com sua autonomia, organizando-se sem hierarquias e sem um grupo dirigente ou governante, associando-se num sistema que chamamos de federalismo.

Acreditamos que só assim construiremos uma sociedade livre, justa e igualitária.
Façamos nós mesmos a nossa história! Existe política além do voto!

TOMÁS MORE: PATRONO DOS GOVERNANTES E DOS POLÍTICOS
Por José Carlos Brandi Aleixo
Professor emérito da Universidade de Brasília

 quingentésimo aniversário da publicação de A Utopia, em 1516, em Lovaina, oferece grande incentivo para refletir sobre a vida é a obra de seu célebre autor Tomás More. As múltiplas edições do livro em diversos idiomas e a excelente acolhida ao filme, de 1966, A Man for Allseasons (intitulado no Brasil O homem que não vendeu sua alma), de Fred Zinneman, são eloquentes encômios a respeito dele.

Filho de pais abastados e influentes, nasceu e faleceu em Londres (1478-1535). Com estudos em Oxford e em outros famosos educandários, tornou-se advogado. Do seu casamento com Jane Colt (1505-1511), nasceram quatro filhos. Seu lar acolhia genros, noras, netos e estava aberto a amigos e jovens à procura de orientação. Segundo biógrafos, foi de exemplar vida matrimonial.

Em 1504 elegeu-se, pela primeira vez, parlamentar. Em 1521 foi galardoado com o título de Cavaleiro. Em 1522 tornou-se Presidente da Câmara dos Comuns. Em 1529 Henrique VIII designou-o Chanceler. Era estimado pela integridade moral, competência, sutileza de pensamento, afabilidade cultura ímpar.

Na primavera de 1515, a pedido do rei e de mercadores ingleses, juntou-se à delegação enviada à Flandres para negociar tratados comerciais e diplomáticos. Dificuldades para reunir-se com os representantes da França e dos Países Baixos permitiram que More conversasse mais tempo com o amigo Erasmo de Rotterdan, autor de Elogio à Loucura e de A Educação de Um Príncipe Cristão. No mesmo período, em visita a Antuérpia - cidade com Feitoria portuguesa -, palestrou com o notável navegador lusitano Rafael Hitlodeu. Ambos conheciam bem autores helênicos e romanos e interessavam-se pela organização política dos povos. Rafael havia muito viajado quer com Américo Vespúcio, quer separadamente. Visitou a ilha "Utopia". More registrou os seguintes comentários do seu interlocutor:

[...] a Justiça da Inglaterra e de muitos países se assemelham os mestres que espancam alunos em lugar de instruí-los. Fazeis sofrer os ladrões pavorosos tormentos; não seria melhor garantir a existência a todos os membros da obviedade a f im de que ninguém se visse na necessidade de roubar primeiro e de morrer depois? A principal causa da miséria pública reside no número excessivo de nobres zangões ociosos, que se nutrem do suor e do trabalho de outrem e que para aumentar seus rendimentos mandam cultivar suas terras escorchando os rendeiros até a carne viva. [...]
Eles subtraem vastos tratos de terra da agricultura e os convertem em pastagens; abatem as casas, as aldeias, deixando apenas o templo para servir de estábulo para os carneiros. A honra de vosso senhor é a sua felicidade consistem na riqueza de seus súditos mais ainda do que na sua própria.

Os homens fizeram os reis; colocaram chefes à sua frente para que pudessem viver comodamente ao abrigo das violências e dos ultrajes; o dever mais sagrado do príncipe é velar pela felicidade do povo antes de velar pela sua própria; como um pastor fiel, deve dedicar-se a seu rebanho e conduzi-lo às passagens mais férteis. [...]. A dignidade real não consiste em reinar sobre mendigos, mas sobre homens ricos e felizes.

Rafael louvou o general romano Fabricius, Cônsul de 282 a 275 a. C., que expressou: "prefiro governar ricos a eu mesmo ser rico". Sabe-se que Pirro tentou, em vão, suborná-lo. Em 1529 More exerceu, novamente, funções diplomáticas. Com CuthbertTunstall, em Cambrai (Cambraia), em negociações com representantes de Francisco I da França, e de Carlos V, da Alemanha e da Espanha, assegurou interesses da Inglaterra. More comemorou o êxito da missão na Igreja de Chelsea, cidade vizinha de Londres.

Em 1532, Tomás More demitiu-se do cargo de chanceler. Em 1534 negou-se a aceitar a pretendida supremacia de Henrique VIII (ActofSupremacy) como chefe da Igreja da Inglaterra. Não endossou o divórcio do Rei. Entre 17 de abril de 1534 e6 de julho de 1535 viveu encarcerado na Torre de Londres. Textos redigidos durante sua dolorosa permanência nesse ergástulo foram publicados no livro A sós com Deus, pela Editora Quadrante, em São Paulo, em 2002. Antes de ser decapitado, declarou: "Morro servidor fiel do rei, mas Deus em primeiro lugar".

Tomás More grafou como seu epitáfio: "Não odioso à nobreza nem desagradável ao povo, mas temido por ladrões, assassinos e heréticos". O irlandês Jonathan Swift (1667-1745), autor das Viagens de Gulliver, parco em elogios, enalteceu-o como "a pessoa mais virtuosa que este reino jamais produziu". Vladimir Lenin, em 1818, erigiu estátua sua no Jardim Aleksndrovsky, perto do Kremlin. Dele declarou Pio XI: "Homem verdadeiramente completo". João Paulo II, na Carta Apostólica E Sancti Tomae Mori, em 31 de outubro de 2000, proclamou-o "Patrono dos Governantes e dos Políticos". Nela se lê:
Da vida e martírio de São Tomás More emana uma mensagem que atravessa os séculos w fala aos homens de todos os tempos da dignidade inalienável da consciência ... A sua figura é vista como fonte de inspiração para uma política que visa como seu fim supremo o serviço da pessoa. Vinte e dois de junho é a data da comemoração litúrgica do martírio seu e do bispo John Fischer. Utopia não é ucronia. O que não há hoje, poderá existir amanhã algures.
***
À guisa de conclusão – pode-se dizer que o País inteiro, desde março de 2013, parece ter acordado, e cada um a seu modo e seguindo sua concepção e entendimento das questões que movimentam o Brasil, saiu às ruas para realizar manifestações as mais diversas ou permaneceu silente acompanhado os fatos que movimentam a vida política partidária e social, como se estivesse a dizer: eu existo, estou aqui – e luto por Brasil diferente e de igualdades, liberdade e oportunidades para todos, ou seja, existe política além do voto e dá para fazer política sem ser político. É como penso.
Postagem: www.unidosporbrasilia.com.br – 27/06/2016 – LGR.

A palavra “utopia” não existiu até o inglês Thomas Morus (1478-1535) tê-la criado, ao publicar em 1516 a obra a que deu o título de “A Utopia”.

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