LIVROS, LEITURAS E BIBLIOTECAS

Por Luiz Gonzaga da Rocha

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Preâmbulo.
A produção nacional de livros, nesses primeiros quinze anos do século XXI, ultrapassou a casa de 500 milhões de exemplares, o correspondente a algo próximo de 60 mil títulos, e o país responde, sozinho, por mais da metade dos livros editados em toda a América Latina. Contudo, o número de leitores não acompanhou o desempenho da produção editorial, de modo, que dados da Câmara de Comércio do Livro apontam que 49% dos livros estão nas mãos de 10% da população; 50% dos brasileiros leitores leem apenas livros indicados pelas escolas; cada brasileiro compra, em média, 1,2 livro por ano, e o dado mais desalentador é o índice de leitura do brasileiro, em média, apenas 1,8 livro por ano.

No início deste ano de 2015, a notícia de que 529.373 estudantes tiraram zero na prova de redação do ENEM estampou as páginas dos principais jornais brasileiros. Esse meio milhão de notas zero é um número chocante e provocou inúmeras reações na mídia, reclamação dos professores e dirigentes de escolas e do público em geral, e agora, repercute neste artigo. Duas observações saltam aos olhos, esses alunos não são leitores ou não tiveram oportunidades de frequência a bibliotecas públicas ou de locais aonde pudesse ter acesso aos livros.

Não adianta somente colocar o livro em foco para explicar o desastre de um país em que se ler tão pouco (ficamos atrás da Colômbia, 2,4 livros lidos, per capita ano). Livros temos, o que nos falta são leitores e bibliotecas. A lei nº 12.244/2010 preconiza que até 2020 toda escola deverá ter biblioteca, e para que se alcance essa meta, será necessário construir cerca de 50 bibliotecas dia. A triste realidade da falta de biblioteca é agravada pelo baixo hábito de leitura.

Para o Professor Ricardo Oriá , a mudança desse quadro desalentador acerca do mundo do livro e da leitura, duas instituições são fundamentais se quisermos, de fato, edificar uma Ricardo Oriá é doutor em história da educação pela Universidade de São Paulo, mestre em Direito Público pela Faculdade de Direito da UFC. Professor do Departamento de História da Universidade.

sociedade leitora e letrada: a escola e a biblioteca. Aliás, os especialistas em políticas culturais são unânimes em considerar que a melhor forma de democratizar o acesso da população ao livro é incentivar a implantação de bibliotecas em todos os municípios brasileiros, dotando-as de um acervo atualizado e integrado aos novos suportes de informação e tecnologia.

As palavras expressam sentimento e o nosso sentimento é de que o que vale para o cidadão brasileiro, no geral, vale para os maçons e para a maçonaria, no particular. A nossa Ordem recomenda a instrução aos maçons em todos os graus, níveis e ritos; apregoa a existência de bibliotecas e até seleciona um Irmão para cuidar do acervo: O Irmão Bibliotecário. As editoras maçônicas estão a pleno vapor, são livros e mais livros e títulos e mais títulos a cada ano, mas, e os leitores? Ah! Os leitores maçons para os livros maçons; para a educação maçônica, para a cultura de maçonaria; para a transmissão do conhecimento e para a formação dos Aprendizes, Companheiros e Mestres, aonde estão?

Uma Biblioteca Pública Maçônica no GODF.

A certa altura da vida minha escalada maçônica, sou ou estou (não sei bem ao certo) alçado à condição de Secretário de Educação e Cultura do Grande Oriente do Distrito Federal, e, em afinada sintonia com as aspirações do Grão-Mestre Lucas Francisco Galdeano, do Grão-Mestre Adjunto Reginaldo Gusmão de Albuquerque, e aquiescência dos demais Secretários e Administradores, alimento a ideia e sonho com o estabelecimento do embrião de uma Biblioteca Maçônica, e seguindo um figurino incomum, imagino que seja uma Biblioteca Pública, portanto, aberta à cultura de maçonaria e ao conhecimento universal, em que se possa disponibilizar, a todos quantos queiram se aventurar na leitura e no estudo da Arte Real, à condição necessária de acesso e informação.
bibliotecaA Biblioteca Pública Maçônica do Grande Oriente do Distrito Federal, como pensamento, pretende ser e unir, como na visão de T. S. Eliot, “o tempo presente e o tempo passado, então, talvez, viva no tempo futuro e o tempo futuro contido no tempo passado ”, para que os maçons e os cidadãos possam trilhar o percurso da linguagem, da cultura, do conhecimento e da sabedoria na superação da liberdade individual, e na conquista da liberdade de consciência, e assim, poder driblar as vicissitudes e melhor contribuir para a superação das desigualdades intelectuais e da cultura de maçonaria.

Julgo desnecessário asseverar que os nossos livros pessoais, lidos ou aguardando por oportunidades de leitura, retêm nossa cultura e refletem o que somos, e o faço para afirmar que habitar o livro ou permitir que o livro, de forma sucinta, nos habite, é reforçar o nosso ideal maçônico de aperfeiçoamento, de humanismo, da experiência da verdade que nos liberta dos grilhões da ignorância intelectual. Habitar a Biblioteca é, ao mesmo tempo, a plena realização do itinerário mítico da fenomenologia do espírito buscador de luz.

É claro que almejamos, sucintamente, alcançar os livros, e não estou imaginando uma colossal Biblioteca, e nem mesmo milhares de volumes que seriam necessários para preencher a.

Federal da Paraíba e da Universidade Federal do Ceará. O texto referenciado consta da apresentação do livro: Legislação sobre livro e leitura, p. 13.
Leão. Emmanuel Carneiro, no âmago da linguagem, in Reflexões sobre os caminhos do livro, p. 81 e ss.

necessidade dos leitores, mas Biblioteca e livros, e em cada livro em particular, que possa preencher as lacunas do saber preexistente nas mentes das pessoas que vierem adentrar ao seu espaço, de modo que o espaço da Biblioteca se encontre com os livros necessários à unificação do saber controlável, sem que indivíduos, livro e biblioteca percam sua individualidade.

O nosso Irmão Daniel Defoe em seu livro sobre Robinson Crusoé , transmite a ideia de que o náufrago deveria, para atenuar os dias penosos que se estendiam à sua frente, satisfazer suas necessidades imediatas – ErstKommt das Fressen, da Kommt die Moral – primeiro o rango; em seguida, a moral. Mais tarde Bertold Brecht completou: “tendo garantido sua subsistência, Robinson esforçou-se por cuidar de seu espírito e procurou um entretenimento moral na magra biblioteca de seu barco. Robinson foi o fundador – contra a vontade – de uma sociedade nova; nesse caso, seu autor, Daniel Dofoe, julgou necessário que no alvorecer de uma sociedade nova, houvessem livros .

Os livros, queiramos ou não, são espelhos da nossa sociedade, e também, nosso próprio espelho, o espelho da nossa cultura e o espelho das nossas invenções e criações. A “era informacional” é o resultado do livro e do saber adquirido . Parece desenhado, assim, que para o bom maçom, o maçom educado e culto, deve, em suma, ser um bom leitor, e neste caso, não podemos combater a ignorância, a corrupção ou a desigualdade, nem cultivar a democracia, sem fazer apelo à única arma a nosso alcance: o livro e o seu grande veículo, que é a leitura .

A arte de ler é a arte de pensar. Nas palavras de ÉmileFaguet , “Felizes, talvez, aqueles que não tem necessidade de livros para pensar, e de todo infelizes, sem dúvida, aqueles que ao ler só pensam exatamente aquilo que pensa o autor” (Faguet, 139). O livro é um amigo precioso e muito caro. Já se disse que do pior livro se pode tirar algo de bom e que, em consequência, um livro é sempre um amigo e um benfeitor. Portanto, meu irmão e meu caro leitor: livros e mais livros apesar do cansaço e das dores do corpo depois de um dia de trabalho. A Biblioteca Pública Maçônica do Grande Oriente do Distrito Federal poderá ser um grande lenitivo.

A ideia é criar uma associação civil, sem fins lucrativo, sob a égide do Grande Oriente do Distrito Federal e coordenação da Secretaria de Educação e Cultura, tendo como desiderato promover o desenvolvimento comunitário por livros de empréstimo e materiais especiais, oferta de serviços de pesquisa em sala de leitura, promoção de atividades culturais, incentivo à leitura e de outras técnicas adequadas para a investigação, consulta, criação e difusão da cultura maçônica e da educação continuada do maçom e do cidadão.

Nos primeiros dias de outubro do ano de 1659, depois de ter naufragado no litoral do que iria ser chamado “Ilha do Desespero” por ele, Robinson voltou aos destroços de seu barco à procura de algumas ferramentas e de vitualhas, assim como de “várias coisas de menor valor”, tais como pena de escrever, tinta, papel e livros.

Manguel. Alberto, A biblioteca de Robinson, in Reflexões sobre os Caminhos do Livro, p. 105.
Freitag. Barbara, Era informacional e uso do livro, in Reflexões sobre os Caminhos do Livro, p. 138.
Morales. Glória López, Os novos alfabetizados da sociedade das redes, in Reflexões sobre os Caminhos do Livro, p. 144.

ÉmileFaguet (1847-1916) foi aluno daÉcoleNormaleSupérieure, doutor em letras e titular da cadeira de Poesia Francesa na Sorbonne. Tornou-se membro da Academia Francesa em 1900 e colaborou com o célebre JournaldesDábats. Embora tenha abordado através de seus inúmeros escritos a esferapolítica, permanece conhecido, sobretudo, por sua obra de crítico literário e teatral.

Uma biblioteca pública gestada e mantida pela Maçonaria será algo inédito no Distrito Federal, principalmente, por tratar-se de uma associação criada para ser um espaço sociocultural que irá dispor de produtos e serviços informacionais para a comunidade em geral, contribuindo para a formação de hábitos de leitura, despertando a consciência da participação social e contribuindo, de forma desinteressada, para a formação de cidadãos aptos a contribuir com o desenvolvimento da Maçonaria e da sociedade em geral.

Conclusão.
Caríssimos Irmãos e amados leitores. O futuro da Maçonaria, visto do presente, passa pela ação ordenada de fazer o bem sem olhar a quem, e passa pelo papel que a Maçonaria e os Maçons se dispuserem a construir para a promoção do bem-estar social para além do dia de hoje, e neste contexto se insere o fomento à leitura e o incremento à formação de uma sociedade do conhecimento, valorização dos costumes e aprendizado contínuo,estabelecendo um ciclo de retroalimentação positiva, de modo a romper com o círculo vicioso de retroalimentação que medeia entre baixa qualidade do conhecimento e a perda de qualidade da cultura e da educação maçônica.

Assim seja, e que o nosso projeto de um Armazém Enciclopédico de Sabedoria Maçônica e de outros saberes não seja um castelo no ar, um amontoado de livros, uma fonte de desperdício de dinheiro e de esforços de um grupo abnegado de irmãos, mas um espaço que funcione como epicentro do saber e que alcance, pelo menos, três dos seus objetivos primordiais: assegurar ao público o pleno exercício do direito de acesso ao uso do livro maçônico; promover e incentivar o interesse maçônico pelo hábito da leitura; capacitar o maçom para o uso do livro como fator fundamental para o progresso e acesso à cultura de maçonaria. E o mais que vier, quando vier, represente ganhos para a Maçonaria e para a Sociedade.

leituraPor fim, resta declarar queprecisamos reverter o processo de leitura e bibliotecas que serve a poucos, que precisamos ser artificieis de um país,verdadeiramente, arquitetado “com homens e livros” como Monteiro Lobato preconizou, e,piamente, acreditamos que, com a doação de um livro por cada maçom brasiliense, e se pudermos contar com a disposição e a colaboração das Lojas Maçônicas, do Grande Oriente do Distrito Federal, do Grande Oriente do Brasil, estaremos reiniciando a caminhada de encontros entre leitores e livros.
Está lançado o desafio: faz trezentos anos que somos parte da história, agora podemos ser parte do futuro, e para tal, basta que nos comprometamos hoje, para melhorar o amanhã.

Bibliografia e leitura recomendada:
Faguet. Émile, A Arte de Ler, Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2009.
Flower. Derek Adie, Biblioteca de Alexandria: as histórias da maior biblioteca da Antiguidade, São Paulo: Nova Alexandria, 2002.
Legislação sobre Livros e Leitura, Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2011.
Portella. Eduardo, Reflexões sobre os Caminhos do Livro, São Paulo: UNESCO/Moderna, 2003.
Silveira. Júlio / Ribas. Marta (Org.), A Paixão pelos Livros, Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004.

imagemJPGLuiz Gonzaga da Rocha – Secretário de Educação e Cultura do Grande Oriente do Distrito Federal. Presidente das Associações das Academia Brasileira Maçonicas de Letras. Membro Efetivo da ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 3793 e da Loja de Pesquisa do Grande Oriente do Distrito Federal.

Postagem: www.unidosporbrasilia.com.br - LGR - 29/07/2015

 

 

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