OS PROJETOS QUE PENSARAM A CAPITAL DO PAÍS

Por Luiz Gonzaga Rocha

Carrego o sentimento de que não precisamos inventar a roda todas as vezes que dela precisarmos, e uso o argumento para assinalar que não me vejo prejudicado em minha imagem de escritor e livre pensador político pelo fato de admitir que “o que é bom se copia”,mas, para não contrariar alicerçadas ideias deque “um leão que copia um leão torna-se um macaco”, vou propagar o entendimento de que “o que é bom se republica”.

Assim, republico o texto da jornalista Ana Elisa Santana, para que possa ser acessado, dissecado, e, sobremodo, disponibilizado aos leitores que, de uma forma ou de outra, poderia não ter acesso ao texto se não fosse ele aqui republicado. Em verdade, nós que amamos Brasília, precisamos de conexão e informação convenientes sobre a nossa cidade, e o texto da jornalista Ana Elisa, se insere neste contexto, convenhamos.

 

OS PROJETOS QUE PENSARAM A CAPITAL DO PAÍS

                                                                               Por Ana Elisa Santana

brasilia

Brasília é mundialmente conhecida por abrigar monumentos desenhados por Oscar Niemeyer e ter sido planejada como "a cidade em forma de avião". O projeto, assinado pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa, é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade e tem como marca a valorização da alvorada no Planalto Central: as construções valorizam a visão do céu da cidade, sendo possível enxergar o horizonte em praticamente todos os pontos do Plano Piloto. A alvorada traduz o sentimento de "novo tempo" vivido à época do mandato de Juscelino Kubitschek como presidente do Brasil. A cidade ganhou de André Marlaux o título de "Capital da Esperança" e se tornou símbolo do processo de modernização pelo qual o país passava enquanto ocorria sua construção e fundação.

Mas a cidade, que completa 55 anos neste 21 de abril de 2015, poderia ser bem diferente da que conhecemos. Antes da construção da nova capital da República, o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital foi realizado, entre setembro de 1956 e março de 1957, e reuniu 26 projetos que se propunham a pensar em uma nova cidade. A história desse concurso que pensou em várias Brasílias possíveis foi contada pelo arquiteto e urbanista Milton Braga no livro "O Concurso de Brasília". Segundo Braga, entre os concorrentes era quase unânime a influência do que já estava em destaque na arquitetura mundial: o chamado urbanismo modernista. A construção da nova capital pode ser considerada um marco no desenvolvimento brasileiro: "É um momento da nossa história em que a gente tinha pessoas muito bem preparadas, um projeto de futuro e uma visão de país que talvez nunca tivemos nem antes, nem depois. Brasília era um projeto de país, e toda essa visão produziu coisas incríveis", afirma o arquiteto.

Sete deles foram finalistas da competição. Conheça as propostas que poderiam ter dado origem a uma Brasília diferente da que conhecemos:

5º colocado (1): Milton Ghiraldini e equipe

A proposta pensava em uma zona central para a cidade, que seria composta pelo centro governamental, cultural e comercial, além dos ministérios e embaixadas. Ao redor dessa zona, estariam posicionados quatro retângulos que abrigariam as superquadras, que abandonavam o formato de 100m x 100m e eram de 15 a 20 vezes maiores, com um parque interior que seria sua a espinha dorsal. Os desenhos apresentados pela equipe de Ghiraldini mostravam uma cidade setorizada que deveria abrigar no máximo 200 mil habitantes e organizava os espaços tentando equilibrar três elementos da vida urbana: habitar, trabalhar, recrear.

Entre os comentários do júri, destacou-se que o projeto tinha uma simplificação exagerada das zonas e não apresentava o caráter de uma capital.

mapa

 

5º colocado (2): Vilanova Artigas e equipe

 Defendia a ideia de que Brasília deveria ter uma distribuição da população melhor do que a que existia no Rio de Janeiro e região costeira do país, e não deveria se transformar em centro demográfico, comercial, industrial, cultural e turístico, como ocorreu com a capital anterior. Previa que os habitantes da cidade seriam divididos em três populações: a nuclear, de funcionários públicos, civis e militares, a colateral, formada por turistas ou pessoas que estivessem residindo na cidade por temporada. O território seria distribuído em zonas, que concentrariam cada uma atividades diferentes: desde a função administrativa e comercial até as áreas residenciais e verdes. 

O júri criticou, neste projeto, a ausência das embaixadas, consulados e centros de rádio e TV, e entre outros pontos considerou que as zonas residenciais eram muito uniformes e que havia má circulação das residências para o centro cívico da cidade e a sede do governo.

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5ª colocado (3): Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti

 O projeto apresentado definia a cidade como uma área imersa em áreas verdes, e o traçado básico da capital foi elaborado conforme se contornava o Lago Paranoá e a localização aproximada das estradas de ferro e rodagem próximas à região do Distrito Federal. Brasília seria organizada em dois eixos principais: de atividades públicas, administrativas e governo; e de vida particular, cruzando-se com o centro comercial e recreativo da cidade. 

O júri elogiou a proposta no aspecto de densidade, economia e uso da terra, mas criticou, neste projeto, a segregação por classe das moradias de operários, o agrupamento das embaixadas e dos ministérios, feito em extremidades distintas do plano piloto. A avaliação foi, também, de que as unidades de habitação resultariam disformes quando colocadas em prática.

maquete   

maquete2

 3º e 4º colocados reunidos: M.M.M. Roberto e equipe

Os irmãos Roberto pensaram em uma cidade que apresentava uma flexibilidade em relação à quantidade de 500 mil habitantes que em geral foi prevista tanto pelo edital do concurso quando pela maioria dos demais projetos. Para tanto, eles projetaram sete estruturas em forma de círculo, que funcionariam como cidades independentes, que poderiam se expandir para até 14 dessas estruturas urbanas. Cada uma delas, com 72 mil habitantes, teria o centro – chamado de Core – onde seriam oferecidos serviços especializados e comércio, e estaria localizada uma parte da administração federal. Para Milton Braga, este era o projeto mais moderno de todos no sentido de ser uma cidade completamente definida, mas essa não era exatamente uma vantagem: "eles indicavam o número de pessoas que trabalharia em cada lugar, em cada bolsão de trabalho e por aí em diante; uma convicção de que a cidade poderia ser totalmente definida como se fosse um grande edifício. Essa é a grande crítica que se faz a essa idealização da cidade como objeto único de projeto; o que não é nem desejável nem possível", explica.

Para o júri, o projeto para construção e financiamento da cidade era prático e realista, e foi considerado o mais completo do concurso em relação ao uso da terra. No entanto, por ter partes separadas, não tinha relações de caráter metropolitano: cada parte possuía vida própria.

 

superblocos3º e 4º colocados reunidos: Rino Levi e equipe

A ideia de Rino Levi apresenta superblocos nas zonas de habitação intensiva, que teriam 16 mil habitantes cada e mediriam 300 metros de altura.

Cada superbloco seria dividido em quatro unidades de habitação para 4 mil pessoas, e teria, além do térreo com um piloti de 10 metros de altura, subsolo para garagem e ruas internas, onde haveria lojas comerciais que ofereceriam os mais diversos tipos de serviço aos moradores. A cada conjunto de três superblocos, haveria um jardim de infância e um posto de saúde. Para Milton Braga, o projeto é, talvez, o mais inovador entre os finalistas. "Embora do ponto de vista conceitual ele ainda estivesse defendendo a cidade funcionalista, ele antecipou a formalização dessa arquitetura racionalista funcionalista que veio a seguir no mundo inteiro das megas estruturas", aponta. A ideia de verticalizar a cidade, no entanto, torna a execução do projeto inviável. "Erraram um pouco na proporção do que era definido e no que era transformável. Definiram demais, e ao colocar (a cidade) em um prédio você perde muito da flexibilidade que se tem no chão", pondera.

O júri considerou que o projeto tinha boa aparência, mas não tinha um centro de transporte, além de apresentar uma altura desnecessária nos edifícios, com uma concentração de pessoas desaconselhável.

 

 2º colocado: BoruchMilman e equipe

O projeto apresentado por Milman e sua equipe defendia a ideia de que a nova administração governamental deveria ser alojada em uma pequena cidade. Para tanto, a proposta definia que o plano piloto seria a conciliação de uma cidade governamental de crescimento controlado com outro local de crescimento ilimitado, flexibilizado em satélites urbanos, já dando sinal para a característica metropolitana que Brasília provavelmente teria. Para o júri, a proposta trazia uma localização muito atraente para as habitações na península. No entanto, considerou-se que as áreas adequadas, pelo projeto, para uma população de 750 mil pessoas não poderiam ser desenvolvidas com facilidade ao infinito. Não havia, também, utilização das áreas mais elevadas do terreno, e havia muitas vias sem desenvolvimento em suas periferias, fator que encareceria o desenvolvimento.

reproduçaõ

 

 1º colocado: Lucio Costa

Enquanto alguns projetos foram entregues à comissão julgadora com diversos desenhos detalhados e mais de 200 páginas explicativas, a proposta de Lúcio Costa foi apresentada apenas com um plano piloto desenhado à mão e um relatório justificativo de 24 páginas, o mínimo exigido pela organização. Na proposta, a cidade era organizada pelo cruzamento de dois eixos, um deles arqueado para o escoamento das águas, resultando assim na forma de avião que se conhece. Ao longo do eixo reto, foram ordenados os setores de administração governamental; e no eixo arqueado, a região residencial, por onde passa uma malha rodoviária constituída de pistas de alta velocidade e pistas laterais para o tráfego local.

vista-do alto

O plano previa que o centro governamental e o plano piloto estariam totalmente construídos em 10 anos. O tamanho da cidade seria limitado: após 20 anos, seu crescimento se daria pelas penínsulas e em cidades satélites. Problemas que são observados hoje pelos moradores do Distrito Federal, com a dificuldade deslocamento e alagamentos em época de chuva, acontecem, segundo Milton Braga, não "por causa" do projeto de Lucio Costa, mas "apesar" do projeto de Lucio Costa. Para ele, alguns aspectos como o crescimento da cidade não foram tão bem considerados quanto deviam, mas o projeto aponta o desenvolvimento de Brasília em um organismo metropolitano, composto por cidades satélites. "Isso (o crescimento pelas satélites) se fez, mas se fez muito mal, e não é por causa do projeto dele, é pela ausência de ouros projetos, de uma capacidade de planejar esse desenvolvimento", argumenta.

Adaptações vêm sendo feitas na capital, desde a sua fundação, para acompanhar o ritmo de desenvolvimento urbano comum a todas as cidades. Por isso, alguns aspectos do projeto de Lucio Costa, como a setorização do território de acordo com atividades comercial, hoteleira, etc, vem ganhando novos contornos. "Cada vez mais a vida urbana mistura as atividades, a gente trabalha e mora muitas vezes ano mesmo lugar. A evolução foi na contramão do funcionalismo urbano, que foi uma grande esperança de tornar a cidade mais saudável, eficiente, mas não deu certo", explica Braga.

torre

A Brasília construída não foi exatamente igual àquela apresentada no concurso: segundo Milton Braga, o projeto implantado é mais moderno, porque vários arquitetos depois trabalharam no desenvolvimento do plano piloto. O projeto de Lucio Costa, na opinião do arquiteto, favorece um futuro otimista para Brasília. "Esse futuro vai ser tanto melhor quanto melhor a gente souber transformá-lo, o que não é uma coisa fácil. É importante não descaracterizar a essência (da cidade) é fundamental, até porque ela é tombada, mas também não deixar de transformá-la quando for necessário porque a vida não para, a cidade é sempre inacabada. Essa simplicidade de organização essencial é a chave para que ela possa se transformar sem perder o seu DNA", conta.

 

jornalistaCriado em 21/04/2015, por Ana Elisa Santana. Jornalista EBC
Postagem: www.unidosporbrasilia.com.br– 22/04/2015 – LGR.

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