LUCIANO DE SAMÓSATA

Luiz Gonzaga da Rocha*

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Mestre e Príncipe do Real Segredo

Estamos ingressando, agora, pelo portal do Consistório de Príncipes do Real Segredo, e o fazemos com a pretensão de acompanhar os julgamentos do Grande Inspetor Inquisidor, (Grande Juiz Comendador ou Grande Inspetor Inquisidor Comendador), no Tribunal da Santa Vehme, ou seja, acompanhar os trabalhos dos Maçons colados no Grau 31 do Rito Escocês Antigo e Aceito. Imóvel em nosso assento, percebemos o ingresso dos oficiantes e ocupantes dos cargos administrativos e dos neófitos. Abertos os trabalhos e tendo início a Instrução do Grau, mais conhecido como Palestra Filosófica, temos a nossa atenção conduzida para o nome de Luciano de Samósata . O Cenário é o de um autêntico Tribunal, ornamentado com a estatueta de Themis (deusa guardiã dos juramentos dos homens), um Quadro Alegórico representando o Julgamento de Osíris, o Painel do Grau trinta e um, e uma grande Cruz Teutônica em prata, tendo ao centro o número 31.

No diálogo que se estabelece no Tribunal, a parte mais destacada, procede do pronunciamento do Procurador-Geral (Orador) quando afirma expansivamente que “outros professam a crença, mais acentuada, de que estes mundos representam estados subjetivos em que a alma, que se lembram cria para si mesma sua plena felicidade ou se faz seu próprio carrasco”.E, em seguida, o pronunciamento do Verdadeiro Juiz (1º Vigilante) retorqui e proclama:

“Já, para o fim da antiguidade clássica, o ceticismo declarou-se contra esta parte das crenças populares. LUCIANO DE SAMÓSATA, o grande zombeteiro do segundo século, forjou um diálogo entre MINOS e um célebre bandido, SÓSTRATO. Este advoga, como certos Mestres da moderna advocacia, que não se pode tornar um Homem responsável por um crime, porque todas as ações humanas são fatalmente determinadas previamente. Vencido pela lógica aparente deste argumento, MINOS o perdoa, mas diz-lhe não pense em ensinar aos Mortos para que nos formulem semelhantes questões”.
E continua proclamando, penso cá do meu canto, agora, com enxertos de cunho maçônico, promovidos, certamente, pelos redatores do Ritual:
“É, no fundo, a inquietante advertência que encontramos, em nossos dias, nos lábios dos filósofos que negam a responsabilidade dos homens e, até, a existência do dever, mas que nos colocam em guarda contra a propagação desta doutrina porque sua difusão conduziria à desorganização da sociedade. A Maçonaria em todo o estado de causa, não poderia ter semelhante linguagem sem trair seu papel”.
Licinos, nascido por volta dos anos de 120/125, em Samósata, capital do antigo reino de Comagena, na margem do Eufrates médio, norte da Síria, então, província romana, latinizou seu nome para Lucianus (Luciano, em Português) e com este nome - Luciano de Samósata- se imortalizou, inclusive no seio da maçonaria.
Inclinado a ser escultor, segundo relata em sua narrativa, mais ou menos autobiográfica, intitulada “O Sonho”, teve a pouca sorte de ter quebrado um bloco de mármore, logo no primeiro dia de aprendizado, a violência que tal inépcia provocou contra ele, por parte do tio-escultor e mestre, e a fuga da oficina ditaram a sua vida subsequente.

Luciano de Samósata, desde então,passou a ganhar a vida como conferencista profissional, sofista e orador errante – carreira que provavelmente o obrigou a ser, em diversos momentos, lobista, advogado, professor, palestrante motivacional e loroteiro – visitou a Turquia, a Grécia, a Gália e o Egito, onde finalmente arrumou uma sinecura no governo. Sua língua natal era quase com certeza o aramaico, mas as obras que deixou – cerca de 80 textos – estavam todas escritas em grego, e ele se tornou conhecido por seus diálogos satíricos e suas críticas aos costumes e à sociedade da época. Em 165 fixou-se em Atenas e se ocupou exclusivamente à composição de suas obras literárias e em Atenas permaneceu por dez anos. Depois de 175 voltou a ser conferencista itinerante, e na época do imperador Cômodo (180-192) encontrava-se estabelecido no Egito desempenhando um alto cargo administrativo. Teria falecido em Alexandria, Egito, por volta do ano de 192, possivelmente, destroçado por cães .

Nesse ponto, vale mencionar que Luciano de Samósata, um Mestre e Príncipe do Real Segredo, como o denominamos, exerceu, a partir da Renascença, significativa influência sobre escritores, filósofos e pensadores ocidentais do porte de Erasmo (Elogio da Loucura), Rabelais (Gargântua e Pantugruel), Quevedo, Swift (Viagens de Gulliver), Cyrano de Bergerac (História cômica dos Estados e do império da lua), Voltaire (Cândido ou o Otimismo) e escritores portugueses a brasileiros, a exemplo de Camões e Machado de Assis.

Autor de inúmeras obras literárias, dentre as quais as mais conhecidas são: (Uma) História Verdadeira ou História Verídica (fantasiosa história falsa de uma viagem imaginária, passada num universo onírico)e o Diálogo dos mortos(cuja presença por ser sentida em O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdã). Entre outras obras de destaques, lista-se:O amigo da mentira; Diálogos das hetairas; Leilão de vidas; Lúkios ou O burro (uma história de aventura, ocasionalmente erótica); Elogio da mosca; Como se deve escrever a história; O parasita; O Sonho ou O Galo; Hermotimo ; o Falso Profeta; e A passagem de Peregrino.

A propósito, antes de adentrar em aspectos estritamente maçônicas, apresento-lhes duas notas breves sobre as obras de Luciano e que se impõem apresentar, por natural imposição intelectual. A primeira, a obra intitulada The Deathof Peregrinus(A passagem de Peregrino ), apresenta informações interessantes a respeito de Cristo e dos primeiros cristãos, que reputo uma rara abordagem do cristianismo segundo o ponto de vista de um não-cristão. Eis a nota:

“Os cristãos, como sabes, adoram um homem até hoje – o personagem distinto que introduziu seus rituais insólitos e foi crucificado por isso (…) Essas criaturas mal orientadas começam com a convicção geral de que são imortais o que explica o desdém pela morte e a devoção voluntária que são tão comuns entre ele; e ainda foi incutido neles pelo seu legislador original que são todos irmãos, desde o momento que se convertem, e vivem segundo as suas leis. Tudo isso adotam como fé, e como resultado desprezam todos os bens mundanos considerando-os simplesmente como propriedade comum” (DeathofPelegrine 11-3; IN: GEISLER, Norman, Enciclopédia de Apologética – Vida 2002, pp.450 [10]).

A outra nota, extraída de Uma História Verdadeira, uma sátira aos livros de viagens de outros autores da época, nela, Luciano relata uma fantástica viagem à Lua, relatos de encontros com seres e situações fantásticas, existência de vida extraterrestre, enveredando por diversos outros temas que em pleno império romano jamais seria pensando, antecipando, em milênios, o gênero literário que somente no século XX seria popularizado como gênero literário e reconhecido como ficção científica.

Desde o início, a leitura de textos e da busca por informações a respeito de Luciano de Samósata, meu impressionou, pois, além do reconhecimento de sua obra fora do Brasil, alguns dos seus livros estão de fácil acesso na internet e em língua portuguesa, espanhola. Francesa e inglesa. De modo que, Luciano de Samósata, pode ser lido, visitado e revisitado, com facilidade.

O texto maçônico, que vamos dissecar parte a parte, a rigor, não faz de Luciano um dos Mestre do Templo do tipo Platão, Buda ou JESUS. A inclusão do seu nome, a nosso entender, se impõe por exigência filosófica do diálogo e para ressaltar a inteligência do redator do texto, o que não deixa de ser interessante observar o que apresenta o texto e o complemento que apresentamos:

Diz o texto do Ritual do Grau 31 (Jacarepaguá•): “Já, para o fim da antiguidade clássica, o ceticismo declarou-se contra esta parte das crenças populares”. A temporalidade apresentada se coaduna com o tempo de Luciano – século II – sendo pertinente observar que o termo antiguidade clássica refere-se ao período que se estende do século VIII a. C., com o surgimento da poesia homérica à queda do Império Romano do Ocidente, no século V da era cristã, mais precisamente no ano de 476. E não foge à regra a aplicação do termo “o ceticismo declarou-se contraparte das crenças populares”. Na época em que ele viveu a religião antiga estava no seu ocaso e o vácuo espiritual deixado pela sua decadência começava a ser preenchido pelo cristianismo. Para se compreender melhor o espírito filosófico de Luciano é necessário conhecer o estado em que se encontrava o mundo pagão nos séculos II e III de nossa era (TALBOT 1912 [11]).

A propósito eis o que nos diz EugèneTalbot, no prefácio de “Obras Completas de Luciano de Samósata:
“A antiga sociedade desmoronava e, a não ser na periferia do império, ninguém mais acredita nas divindades do Olimpo e nem a filosofia tinha respeitabilidade suficiente para substituir a religião. Os costumes públicos que mal começavam a se regenerar em algumas partes do império pelas doutrinas reformadoras e vivificantes do cristianismo, tinham chegado ao último estágio da dissolução e do despudor. Velhos sem dignidade, atrevidos caçadores de heranças, multidão ao mesmo tempo supersticiosa e incrédula, bajuladores e parasitas vendendo sua liberdade por um lugar à mesa dos ricos, retóricos ignorantes e tagarelas, e, acima e tudo, uma massa de espíritos influenciáveis e indecisos entregues à indiferença, essa doença mortal das épocas em que falta a emulação virtuosa e o desejo generoso de praticar o bem e a firmeza das convicções; tal era o mundo que se mostrava aos olhos observadores de Luciano” (TALBOT 1912).

Diz o texto, que LUCIANO DE SAMÓSATA, era um grande zombeteiro do segundo século e que forjou um diálogo entre MINOS e um célebre bandido, SOSTRATO. E ponto final. Sem sombra de dúvidas, uma das formas de ganhar a vida utilizada por Luciano, já o dissemos, era como orador errante, palestrante motivacional e loroteiro. Contudo, o diálogo entre MINOS e SÓSTRATO que aparece na obra “Diálogo dos Mortos”, em que MINOS diz:

“Ó Sóstrato, se examinares minuciosamente, podemos ver muitas mais coisas que não estão de acordo com a razão. Em todo o caso, com a tua pergunta, ganharás o seguinte (pois não pareces ser apenas um salteador, mas também um sofista): Ó Hermes, liberta-o, e que deixe de ser castigado... E tu, Sóstrato, vê lá, não ensines aos outros mortos a fazerem perguntas semelhantes”.
A questão aqui colocada nos remete ao início do diálogo, em que Minos apresenta ao Deus Hermes o salteador Sóstrato, este prestes a ser lançado ao Piriflegetonte (um dos rios do Inferno), e entre Minos e Sóstrato trava-se um diálogo, em que este apela e argumenta pela salvação de sua alma. Da sequência do diálogo se extraiu a parte retratada em que Sóstrato advoga em causa própria e aponta para Minos: Presta-me atenção, ó Minos, se te parecer que eu falo com justiça . Hei de ouvir-te outra vez, agora? Não ficou, então, provado que és um patife que matou tanta gente? (Minos). Ficou provado, é certo, mas vê lá se me castigaram com justiça (Sóstrato). E muito justamente, se é justo que tu pagues o que mereces (Minos). Todavia, responde-me, ó Minos, porque só te farei uma breve pergunta (Sóstrato). Fale, mas só por pouco tempo, para que possamos julgar os outros, em seguida (Minos). Quanto fiz em vida, fi-lo voluntariamente, ou foi-me tecido pela Parca? (Sóstrato). Pela Parca, está visto (Minos).

Minos, então, vencido pela lógica aparente do argumento de que as ações humanas são determinadas pelo destino, portanto, fatalmente determinadas previamente, então, diz: Poderás ver muita outra coisa que acontece contra a lógica, se pesquisares com minúcia, ó Sóstrato. Aliás, com as tuas perguntas, porque não és apenas - ao que parece - um salteador, mas também uma espécie de sofista, ganharás o seguinte: Liberta-o, ó Hermes, e que não seja mais castigado! Mas vê lá, não ensines também os outros mortos a fazerem perguntas semelhantes. E dispensa Sóstrato, como se estivesse a dizer: “Não digas que tu te vais daqui”.

Este é o Luciano de Samósata que pensei em retratar para resgate dos seus ensinamentos no Consistório de Príncipes do Real Segredo, com a pretensão de acompanhar os julgamentos do Grande Tribunal. Curiosamente, a todos a quem perguntei sobre Luciano de Samósata, ninguém soube me dizer que era/ou foi, ou ainda que soubesse, poderiam não me julgar digno de saber o que buscava saber. E assim, fui a campo para descobrir o que fosse factível descobrir. O resultado, ou parte do resultado, lhe foi apresentado em poucas linhas.
E para encerrar, na obra de Luciano há um texto denominado “Dupla Acusação ou Os Julgamentos” e um terceiro outro, “Zeus Refutado”, que se encaixa como uma luva aos ensinamentos perpassados aos neófitos ingressos no Grau 31. Luciano, Mestre e Príncipe do Real Segredo, aqui foi apresentado como o quis, para que se possa, como Mestre dos Templos, ser referenciado.

Luiz Gonzaga Rocha – MI ARLS Aleijadinho 3973/GOB/Brasília.

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