DESCORTINAR DA FRATERNIDADE MAÇÔNICA

Por Luiz Gonzaga da Rocha

 

O tempo da fraternidade é nossa grande e
redentora Utopia (João Alves da Silva)


Preambulo
Caríssimos Irmãos. O saudoso Irmão Octacílio Schüler Sobrinho, no livro “O Desfio das Mudanças” (Sobrinho, p. 162), escreveu: “a vocação dos Maçons é descobrir e investigar quem é o próximo, o  necessitado que merece ser assistido. Ele não espera encontrar um ferido à beira da estrada, mas antecipase para que não se fira”. Temos aqui duas frases, dois sentidos opostos da palavra fraternidade.

O objetivo deste “descortinar da fraternidade maçônica” é focar e iluminar o sentido do termo “fraternidade”,  e, complementarmente, alertar para o aprofundamento do abismo que separa o conceito de fraternidade  no meio maçônico do conceito de fraternidade universal, e para dizer, com todas as letras, que na sua  infraestrutura, a Maçonaria e os Maçons precisam repensar e entender o significado do termo fraternidade  maçônica.

Estou convencido de que se os Dirigentes Maçônicos, em todos os níveis, não entenderem a fraternidade  maçônica como fator de crescimento e de consolidação social, enfrentarão muitas dificuldades para  entenderem o esforço que alguns maçons fazem para reformular velhos conceitos e caminhar para  substituição da concepção de fraternidade incorporada nos moldes “estrito senso” para a concepção de  fraternidade em moldes “lato senso”.

E se nada for feito, a razão deste Encontro de Membros e Membros Correspondentes da Loja Maçônica  Fraternidade Braziliera de Estudos e Pesquisas , aqui em Juiz de Fora, as discussões havidas e ideias  expostas, não farão qualquer sentido. Tudo se perderá, se na prática, não se reproduzir no seio da  Maçonaria Nacional o ideal da fraternidade em seu mais amplo sentido filosófico, político e social.

Indicação para arquivamento: Brasil. Maçonaria. Fraternidade Maçônica.

O Conceito de Fraternidade
Originário do latim “frater”, com o sentido de “Irmão”, o termo fraternidade, não ultrapassa as fronteiras de  conceito filosófico e político associado as ideias de liberdade e igualdade. De modo que, em termos  efetivos, a fraternidade é algo que precisa ser entendido um pouco mais além de solidariedade, caridade,  afeto, união fraternal, carinho de irmão para irmão, e de boas relações de inteligência entre os maçons.

Busquem nos melhores dicionários e aceitem o desafio de encontrar um conceito que destoe da concepção  de que não seja a fraternidade o laço de união entre os homens, de algo fundado no respeito pela dignidade  da pessoa humana e de algo assentado na igualdade de direito entre todos os seres humanos. Ou seja,  duvido que encontrem um conceito que não associe a concepção ou ideário de fraternidade conforme  estampado nas linhas antecedentes.

O conceito ideal de fraternidade, a meu entender, se coaduna com o que se encontra transcrito no artigo  inicial da “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, proclamada pela ONU em 1948, para o qual peço  vênia para transcrição:

“Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São  dotados de razão e consciência e devem agir uns para com os outros  em espirito de fraternidade”

Na “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, impressa a 24 de abril de 1793, por ordem da  Convenção Nacional, em seu artigo XXXV, a ideia de fraternidade política estava vazada nos seguintes  termos:

“Os homens de todos os países são irmãos, e os diferentes povos  devem se auxiliar mutuamente segundo seu poder, como os cidadãos  de um mesmo estado”.

As ideias de fraternidade, conforme transcrita, está ligada, irremediavelmente, a uma concepção de valores  que nos remetem à formação de comunidades, agrupamentos sociais e instituições diversas , em que a  empatia, inclusão, cooperação, compromisso, responsabilidade, confiança, imparcialidade, equidade e  liberdade.

O Significado de Fraternidade
Depois de apresentado a definição, pode-se entender fraternidade como sendo a convivência equilibrada  e agradável entre as pessoas, como sendo o amor demonstrado pelo nosso próximo, e como sendo o afeto  e o carinho dedicado aqueles aos quais não conhecemos. Esses elementos da fraternidade se interrelacionam e costuram o verdadeiro sentido filosófico e político da ideia ou do conceito de per si.

Então, fica fácil perceber que o significado de fraternidade perpassa o pensamento maçônico individualizado e focado no maçom, para se fixar no sentimento de irmandade entre todas as pessoas, e  nos remete às ações que comprovam respeito à dignidade de todos os seres humanos, considerados  iguais e com plenos direitos.

Resta demonstrado, portanto, que a expressão fraternidade não pode e não deve ser confundida com as  expressões/termos: “caridade” e “solidariedade”, e muito menos com o sentido maçônico de “socorro aos  necessitados”. Caridade e Solidariedade é o que induz os Maçons à ajuda desinteressada, é o que a  Maçonaria mais faz ou pratica. Ambrósio Peters, que por muito tempo nos honrou com sua sabedoria nos  Encontros da Loja Maçônica Fraternidade Braziliera de Estudos e Pesquisas, foi mais franco ao substituir  os termos “Fraternidade Maçônica” por “Generosidade Maçônica” (Peters, p. 214).

Fraternidade significa: devotamento, indulgência, abnegação, tolerância, benevolência, doação, e tudo o  mais que for contrário ou oposto ao egoísmo. Ninguém pode ser o relógio que existe sem se conhecer e  sem se relacionar. O fenômeno da relação foi descrito por Martin Buber com o emprego de vários termos:  diálogo, relação essencial, encontro. O conhecer-te a ti mesmo para a pessoa significa, conhecer-se como  ser. A pessoa contempla-se o seu si-mesmo, enquanto que o egótico ocupa-se com o seu “meu”, minha  espécie, minha raça, meu agir, meu gênio (Buber, p. 33).

A fraternidade maçônica
Em sentido estrito, a aplicabilidade do conceito de fraternidade entre os maçons é matéria apenas de  proselitismo (Guimaraes, p. 330), é um desacerto, por pressupor que a fraternidade maçônica abranja, tão  somente, os membros das Lojas ou da Ordem Maçônica. A fraternidade – a verdadeira fraternidade – não  conhece limites ou fronteiras físicas, nem se restringe a um grupo ou associação de pessoas, por mais  relevantes que estas possas ser.

Distribuir sopa, doar alimentos, doar cobertores e agasalhos em tempos frios, distribuir brinquedos em  certas épocas do ano, e algumas outras ações esporádicas ou eventuais praticadas por Lojas e irmãos em  nome da Maçonaria, não condiz em nada, absolutamente nada, com o real conceito de fraternidade. Neste  sentido, a fraternidade maçônica precisa se reinventar, se reconstituir, ir mais além do doar por doar. Não  nos equivoquemos com isso.

Ouso adiantar que a “fraternidade maçônica” é uma balela quase que por completa, seja por não entender  e/ou não considerar que a verdadeira fraternidade assenta-se na ideia de que todos os seres humanos são  iguais, e possuem igual dignidade, iguais direitos e deveres; ou seja por não considerar e/ou não entender  que a fraternidade, na rigorosa acepção do termo, resume todos os deveres e direitos dos homens, uns  para com os outros.

Considerada do ponto de vista da sua importância para a realização da felicidade social, a fraternidade é a  pedra angular, é a base. Sem ela, não pode existir a igualdade, nem a fraternidade. A Maçonaria, por seus  membros e Lojas, precisa investir em entender, compreender, fazer valer a fraternidade como fator de  crescimento e consolidação social da Ordem.

Conclusão
Estamos quase a concluir, e antes de concluir quero louvar a iniciativa da Loja Maçônica Fraternidade  Braziliera de Estudos e Pesquisas em chamar à discussão um tema de tamanha relevância para Maçonaria  e para a sociedade brasileira como um todo. Também aproveito o ensejo para agradecer a todos os que  me ouvem nesta oportunidade, e aos que ausentes deste espaço, terão oportunidade de leitura deste texto.

A todos ouso dizer que o tema não se esgota com esta conclusão, mas que continua aberto, aguardando  a crítica e as sugestões.

Julgo caber aqui, ainda, duas ou três breves considerações a propósito da “fraternidade” no seio da Maçonaria. Senão vejamos:

A infraestrutura maçônica construída em final do século XVII e início do século XVIII demonstra, na  atualidade, ser uma infraestrutura arcaica, superada em termos de valores fraternos, e por assim dizer,  carente do pensar e da ação basilar que realize a felicidade social, sem a qual os maçons e a sociedade  profana deixam de compreender os deveres e os benefícios advindos da fraternidade.

A Maçonaria e os Maçons – e estes principalmente – precisam repensar e entender o significado dos termos fraternidade e fraternidade maçônica. As doações maçônicas, por maiores e melhores que sejam as  intenções, não atendem ao desiderato de tornar feliz a humanidade, melhor seria que os Maçons se  concentram-se em construir e gerenciar Escolas, Hospitais, Cemitérios, Asilos e Creches. Agir  coletivamente em prol da coletividade.

Podemos admitir, grosso modo, que a importância da fraternidade se encontra no mesmo patamar da  liberdade e da igualdade na busca pela felicidade em sociedade. Precisamos agir e agir rápido. Precisamos  divulgar no meio maçônico, tudo o que aqui se produziu. Precisamos ter em mente o sentimento de que o  resultado que aspiramos, é para a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna. E, por fim,  quero afirmar que é a vontade de orientar os homens para a “vida feliz” é o que anima o meu pensamento  como Maçom neste momento e oportunidade.

Obrigado.

Juiz de Fora/MG, 18 de outubro de 2014

Fontes de Apoio:
ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, A Trolha, Londrina, 2012.
BUBER, Martin. Eu e Tu, Centauro, São Paulo, 2001.
CAMINO, Rizzardo da. Grande Dicionário Maçônico, Aurora, Rio de Janeiro, 1990.
GUIMARÃES, João Francisco. Cartilha Maçônica: antigos conceitos, com novas abordagens para o século  XXI, Madras, São Paulo, 2010.
KLOPPENBURG, Boaventura. A Maçonaria no Brasil: orientação para os católicos, Vozes, Petrópolis/RJ,  1961.
LIPOVETSKY, Gilles. A Sociedade Pós-Moralista: o crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos tempos  democráticos, Manole, Barueri/SP, 2006.
NAY, Olivier. História das Idéias Políticas, Vozes, Petrópolis, 2004.
PETERS, Ambrósio Peters, Maçonaria: História e Filosofia, Academia Paranaense de Letras Maçônicas,  Curitiba, 1999.
RAWLS, John. Justiça como Equidade: uma reformulação, Martins Fontes, São Paulo, 2003.
SANTIAGO, Marcos. Prática Maçônica e Sociedade, in Temas para a Reflexão do Mestre Maçom, A Trolha,  Londrina, 1993.
SILVA, João Alves da. Vamos Ler Maçonaria, A Trolha, Londrina, 1996.
SKINNER, Quentin. Hobbes e a liberdade republicana, Unesp, São Paulo, 2010.
SOBRINHO, Octacílio Schüler. O Desafio das Mudanças, A Trolha, Londrina, 2004.

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