OS PROFETAS DO ALEIJADINHO

Por Luiz Gonzaga Rocha*

No ano de 1800, o Aleijadinho começou a esculpir no adro do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos doze Profetas em enormes blocos de esteatita. O termo profeta significa “aquele que prediz o futuro” e na história dos hebreus os profetas tiveram por missão especial a preparação da vinda do Cristo, conservando e fortalecendo a fé do povo ante o perigo da idolatria. Mas, para a professora Isolde Helena Brans Venturelli (em seu livro, ainda para nós desconhecido), os “Profetas” do Aleijadinho, seria “Conjurados”

Os estudiosos não têm explicações do porquê da escolha dos doze profetas e não há precedentes iconográficos no mundo religioso que justifique tal escolha. A não ser, como sinaliza Alberto Beattenmüller, “que a palavra profeta tenha conotação política insuspeitadas, como por exemplo, arautos de um novo tempo, vaticinadores de uma nova era, precursores dos tempos futuros”. Uma constatação bíblica se impõe. O Aleijadinho respeitou a ordenação do Cânon Bíblico para a seleção dos profetas e ainda os situou no adro em posições que segue de perto essa ordenação. Só não se explicar um pormenor: a substituição de Miquéias por Baruch, discípulo e secretário de Jeremias, que não integra a lista oficial de profetas. Os doze profetas pela ordemsão: Isaías, Jeremias, Baruch, Ezequiel e Daniel, e os chamados Profetas menores: Oséias, Joel, Abdias,Amós, Jonas, Habacuc e Naum. Também figuram como profetas: Sifonias, MiquéiasAgeu, Zacarias e Malaquias. 

E, se os “Profetas” do Aleijadinho são “Profetas ou Conjurados”, deixo para o leitor discernir.

ISAÍAS – Honrado com a distinção de ser colocado na entrada da escadaria à esquerda, aparenta idade avançadas, barba e cabelos abundantes. É uma das peças importante no conjunto arquitetônico. A inscrição do filactério do profeta diz: “Cum SeraphimDominumcelebrassent, a SephicoAdmota est labrisforcipeprunameis” – “Quando os serafins celebravam ao Senhor, por um serafim, com um tenaz, uma brasa foi encostada aos meus lábios.” Trata-se de uma passagem do capítulo VI do livro do profeta. Este versículo descreve um dos acontecimentos capitais na vida do Profeta, ou seja, a tomada de consciência de sua vocação, durante uma aparição de Deus de Israel entre uma Corte de Serafins, um dos quais purifica os lábios do profeta com um carvão ardente, preparando-o assim para sua nova missão. Segundo a professora Isolde Helena Brans, Isaías representa o inconfidente Domingos de Abreu Vieira que foi interrogado à exaustão e “instado” a falar, tendo em vista, certamente, o fato de ter sido muito ligado a Tiradentes, de quem era compadre (batizou uma filha do Alferes) e era um dos financiadores do movimento.

JEREMIAS – Ocupando posição de destaque ao lado esquerdo do profeta Isaías, representa um homem de meia idade, com bigodes longos. O pergaminho do profeta diz: “DefleoJudaeaeclademSolymae que ruinam: Ad Dominunquevelint, quaeso, rediresuun” – “Eu choro o desastre da Judéia e a ruína e rogo (a meu povo) que queiram voltar ao seu Senhor” (Jer cap. 35). O profeta está junto a Isaías, ambos ladeando o portão de ingresso ao adro e é autor dos livros proféticos (Lamentações) e sobremodo famoso pelas suas previsões da ruína iminente de Jerusalém. Representa, segundo a professora Isolde, Francisco de Paula Freire Andrade, que era Tenente-Coronel e ocupava o segundo posto na hierarquia da capitania. Tanto Domingos de Abreu Vieira (que doaria a pólvora) e Francisco de Paula Freire (que entraria com a tropa regular de Vila Rica) situam-se como os dois primeiros inconfidentes aliciados por Tiradentes.

BARUCH – A inscrição latina, sustentada à mão direta, diz: “AdventumCrhisti in carne, postremaqueMundiTemporapraedico, praemoneos pios” –“Predigo a vinda de Cristo na carne e o fim dos tempos do Mundo, e aviso aos fiéis” (Br Cap. 1). O profeta está situado no pedestal que arremata o muro de alinhamento central do adro, na extremidade oposta à Ezequiel. Era secretário de Jeremias e tinha a missão de escrever as suas profecias. Segundo a professora Isolde, representa Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, praticante de medicina, vindo de Parati – “a cidade maçônica” – pretendia tornar-se o cirurgião da tropa regular de Vila Rica e com esta aspiração aproximou-se do Comandante da tropa Francisco de Paula Freire, (Jeremias), tornando-se seu discípulo.

EZEQUIEL – Colocado no lado oposto a Baruch, a inscrição latina que ostenta diz: “Quatuor in mediisdescriboanimaliaflamis, Horribilesque Rotas, aethereumqueTronum” – “Descrevo os quatros animais no meio das chamas e as rodas horríveis e o trono etéreo.” A citação resume três etapas da visão do profeta, primeiramente aparece-lhe quatro animais alado de quatro faces cada um, em seguida as quatro rodas de um carro de fogo sustentando um trono de Safira, e finalmente, sobre esse trono, o próprio Deus de Israel. Ezequiel seria o conjurado Luiz Vaz de Toledo Piza, paulista de Taubaté, sargento-mor da Cavalaria auxiliar da Comarca de São João d’El Rei. Foi Toledo Piza que ameaçou Oliveira Lopes, que pretendia delatar a todos para salvar a própria pela. Daí a ameaça de Ezequiel a Oliveira Lopes, representado pelo profeta Naum.

DANIEL –Os traços fisionômicos da escultura mostram um jovem imberbe, com um leão aos seus pés. Em seu pergaminho lê-se: “Speleoinclusus (Sic Rege Spelaeolubente) LeonumNuminisauxilioLiberorincolumnis” – “Encerrado na gruta dos leões por ordem do rei, liberto-me incólume com o auxílio divino.” (Dn 6). Situado em posição de destaque, na passagem de acesso do adro ao plano mais elevado, em frente a Oséias, parece travar com este um diálogo. Daniel, como Ezequiel, sofreu o cativeiro da Babilônia, onde chegou a alcançar grande prestígio junto aos governadores graças sobretudo a seus dons de interpretação de sonhos e escritas misteriosas. Representa Tomás Antônio Gonzaga que, sendo um dos cabeças da Conjuração, com habilidade e ajuda dos companheiros, escapou à pena de morte e apesar de condenado ao degredo por dez anos, acabou trabalhando na Justiça Colonial.

OSÉIAS – Veste um casaco curto, caça botas e tem na mão direita uma pena apoiada na barra do manto, em atitude de quem está escrevendo ou preste a escrever algo. O seu texto diz: “Accipe Adulteram, ait Dominus mihi: id exsequorilla: FactaUxor, proles concipt, atqueconcip, atque parit” – “Aceite a adúltera, disse-me o Senhor: Eu o executo: Ela, feita esposa, concebeu prole, concebeu e pariu” (Os 1). Oséias, na frente de Daniel, porta uma pena, como se estivesse pronto a copiar algo que Daniel lhe ditasse. É o mais importante dos profetas menores, cujo nome é a abreviatura de “Iave” (Salvador). Representa Inácio José de Alvarenga, dileto amigo e prestimoso colaborador de Tomás Antônio Gonzaga. Era estudioso de leis e poeta, fazendo odes aos governantes (costume da época) e à sua esposa (Bárbara Heliodora), uma das mais belas mulheres de Vila Rica.

JOEL – É representando como um personagem viril, de barba e bigodes à moda bizantina. O seu pergaminho diz: “Explico Judae quid terraeEruca Locusta, Bruchus, RuhigoSintparituramali” – “Eu explico à Judéia o mal que causarão à Terra a lagarta, o gafanhoto, o besouro, a mangra do trigo.” Joel é o segundo dos profetas menores no Cânon Bíblico. O seu livro de Profecias tem apenas três capítulos e focaliza o fim dos tempos e o Juízo Final. O primeiro capítulo é uma discrição de terríveis pragas: lagartos, gafanhotos, burgos (besouros) e alforra (ferrugem). No filactério há claramente um alerta contra as pragas e insetos predatórios que danificam os produtos da Terra. Joel é Cláudio Manuel da Costa, por sua vivacidade, espírito folgazão, e que teve de denunciar Alvarenga, daí estar de costa para Oséias (José de Alvarenga).

ABDIAS – A fisionomia do profeta apresenta ser bem jovem e imberbe. A inscrição do filactério que segura na mão esquerda, diz: “Vos Ego Idumaeos et Gentes Arguo. Vobisnuncioluctuficuns, Provindes Interitus”– “Eu vos arguo, Idumeus e gentios. Anuncio-vos e vos prevejo pranto e destruição” (Ab 1). De acordo com a Professora Isolde, Abdias esboça uma advertência com o braço direito alçado e o indicador em riste, apontado para o alto. Representa José Álvares Maciel, uma esperança de futuro do País,em termos libertários e de homem de saber necessário para a nova República que estava por nascer. Ezequiel foi escolhido como patrono e símbolo do jornal “O Aleijadinho”.

AMÓS –Muito diferente da imagem os demais profetas quanto ao tipo físico, indumentaria e calma ou tranquilidade que apresenta fisionomicamente. A sua inscrição diz: “Primo equidem Pastor, factusquedeindePropheta, Invaccas pingues invehor et Proceres” - “Feito primeiro pastor e depois profeta, invisto contra as vacas gordas e contra os Próceres” (Am Cap. 1). O profeta viveu no século VIII a. C. e é um dos mais antigos profetas de Israel. Segundo suas palavras, foi pastor antes de ser chamado para o Ministério Profético do Senhor. Seu estilo é simples e enérgico, utilizando com frequência imagens tomadas da natureza e da vida pastoril, daí a expressão “vacas gordas” para designar as classes dominantes locupletadas de riquezas, enquanto os pobres morrem à míngua. Segundo a professora Isolde, representa o próprio Aleijadinho, que investe contra as classes privilegiadas e contra os governantes. Detalhe: é a única escultura que apresenta deformações anotada na omissão da perna da calça do lado direito.

JONAS – Apresenta traços distintos como a boca entreaberta, dentes à mostra e a cabeça para o alto. A sua inscrição diz: “Aceto absoptuslatecnotesquediesqueTres Ventre in piscistumNinivemvenio” – “Absolvido pelo monstro fico três dias e três noites no ventre do peixe. Depois venho a Nínive” (Jn 2). A história da vida do profeta, destaca a sua recusa a Iavé para pregar em Nínive e em seguida o episódio do castigo sob a forma da permanência no ventre da baleia. É interessante notar que o Aleijadinho o colocou numa posição de destaque no parapeito de entrada do adro, junto a Daniel (Tomás Antônio Gonzaga). A professora Isolde Helena chama a atenção do aspecto amorfo do profeta: a superfície dos olhos de Jonas é inteiramente lisa, o que lhe empresta uma expressão vaga, como a rigidez da morte, os músculos faciais estão caídos e a boca entreaberta. O Jonas saído da baleia não teria essa interpretação fúnebre. Jonas representa Tiradentes, que esteve preso por três anos e teve, depois, seu corpo esquartejado e espalhado por todos os locais onde fazia pregação, na chamada Nínive mineira.

HABACUC – O seu pergaminho diz: “Te, Babilon, Babilon, Te, Te ChaldaeTyrannae Arguo: at in Psalmis Te Deus Alme Cano” – “Eu te acuso, Babilônia, Babilônia, e a ti tirano da Caldéia, mas eu te canto em salmos, Deus que alimenta” (Hab 1). Foi contemporâneo de Naum e Jeremias e assistiu à queda do reino de Jerusalém em mãos dos caldeus e a posterior deportação de seus habitantes para a Babilônia. Na obra do Aleijadinho aparece com o punho esquerdo cerrado, um gesto de protesto. Representa, segundo a professora Isolde, Domingo Vidal Barbosa, que estudou em Montpellier com Álvares Maciel (Abdias). Esteve junto com Maia procurando por Thomas Jefferson, com a finalidade de pedir ajuda para a nova República que iria emergir em Minas Gerais. A estátua, segundo a crítica especializada, teria recebido especial atenção do Mestre Aleijadinho quanto a sua execução.

NAUM – O tipo físico do profeta é o de um velho de barbas longas, postura vacilante e fazes maceradas. O filactérioque apresenta é uma síntese da ideia principal do seu livro de provérbios e diz: “ExponoNinivenmaneatQuapoenarelapsam. Evertedam aio funditusAssyruannahum” – “Exponho que castigo espera Nínive pecadora. Declaro que a Assíria será completamente destruída” (Na 1). Os seus vaticínios não se dirigem ao povo de Israel e sim aos opressores assírios. O seu livro tem como temática única e exclusiva, a ruína de Nínive. Naum corresponde ao coronel de auxiliares Francisco Antônio de Oliveira Lopes, primo de Domingos Vidal Barbosa, que convidado a participar da Conjuração, recusou o convite e fora chamado por Tiradentes de “mofina”. Mais tarde, por ação de Vidal Barbosa, foi assumindo a posição de inconfidente, mas quando Tiradentes foi descoberto, Oliveira Lopes tornou-se um delator. Por isso, sua figura é deprimida, trôpega, perfil próprio dos traidores e dos ambíguos.

O conjunto de esculturas monumentais que marcam as obras finais (1800-1805) estão até hoje no adro dianteiro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas (Minas Gerais). Esculpidos em pedra-sabão, no conjunto estão representados os quatro principais profetas do Antigo Testamento e oito profetas menores. Se os profetas de Congonhas do Campo, são ou são inconfidentes, não podemos afirmar ou negar, por isso, este espaço está aberto à discussão.

 

ADENDO – no texto original de 1999 foram feitas algumas (poucas) inserções e correções gramaticais. Cabe dizer, para concluir, que os Profetas do Aleijadinho representam o maior conjunto de arte barroca do mundo. Foram esculpidas em blocos monolíticos de pedra-sabão, em tamanho natural, por um artista já sexagenário e bastante enfermo. O aleijadinho, como se sabe, veio a óbito em 18 de novembro de 1814.

*Luiz Gonzaga Rocha - 33,Membro Efetivo e Fundador da ARLS Antônio Francisco Lisboa nº 3793), fundada em 21 de junho de 1985. Membro Efetivo e Fundador da Academia Maçônica de Letras do Distrito Federal. Presidente da Associação das Academias Brasileira Maçônica de Letras (AABML).Texto publicado pelo auto no Jornal “O Aleijadinho” de 4/SET/1999.

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Postagem: www.unidosporbrasilia.com.br/aleijadinho - 29/05/2020.

 Crédito das Imagens:http://pesquisashistoricas.no.comunidades.net/aleijadinho

 

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